Com vocês: Anonymous

Quem são os Anonymous? Esta é a pergunta que tem tirado o sono do governo e da mídia nos últimos meses. Vários ataques a sites oficiais, sites de grandes empresas de mídia e de instituições financeiras tem sido atribuídos ao coletivo, que cada vez mais, vem ganhando a simpatia popular. Embora poucos saibam do que realmente estamos falando quando nos referimos a eles, uma coisa é certa: os Anonymous entraram para a história.

Anonymous surgiu em 2003, em um fórum de compartilhamento de imagens chamado 4chan. O nome faz referência ao funcionamento do coletivo, que não busca reconhecimento ou destaque na mídia. Suas ações são motivadas por ideais libertários, de combate à corrupção e censura à livre informação na web. São descentralizados, sem qualquer tipo de hierarquia ou comando central. A liderança nas operações depende única e exclusivamente de alguém ter a idéia e reunir um grupo de pessoas que apoiem, para então, executá-la.
De acordo com o site Superdownloads [1], a primeira ação conjunta dos Anonymous foi em 2006, quando uma criança de 2 anos, portadora de HIV, foi proibida de usar a piscina de uma parque de diversões no Alabama. Eles invadiram um jogo de uma rede social cujo cenário era um hotel. Lá, todos os usuários – com o mesmo Avatar, um homem negro com cabelo Black Power – bloquearam o acesso à piscina, com os dizeres: “fechado devido a AIDS”. Embora tenha sido uma ação pequena e tenha resultado na expulsão destes usuários do jogo, ela já mostrava os rumos que o grupo viria a tomar.
A Wikipédia [2] fala sobre uma segunda ação organizada pelo coletivo no ano de 2007, na qual  seus membros contribuíram para a prisão de um pedófilo chamado Chris Forcand. Após observá-lo por um tempo, e inclusive interagirem com ele, os Anonymous entregaram à polícia informações que levaram  à sua captura. Entretanto, foi apenas no ano de 2008  que eles realizaram seu primeiro grande feito. Um vídeo produzido por Tom Cruise, sobre a Cientologia, vazou na internet e os integrantes da seita pediram que o YouTube o removesse, alegando violação dos direitos autorais. Em resposta à exclusão do material, os Anonymous iniciaram uma série de ataques de negação de serviço (DDoS) aos sites da igreja e trotes telefônicos às sedes da mesma. Por fim, divulgaram um vídeo na internet declarando guerra à cientologia [3].
No mesmo ano, ocorreram ataques a fóruns de discussão sobre Epilepsia nos Estados Unidos e na Inglaterra, que foram atribuídos ao grupo pela mídia [2]. Entretanto, a autoria das ações foi prontamente negada por pessoas ligadas ao coletivo, que por sua vez, atribuíram o feito à igreja da Cientologia. Observando o padrão de outras movimentações dos Anonymous, é difícil imaginar que tenham sido de fatos os autores destes ataques.
No ano seguinte – em 2009 -, os Anonymous realizaram outra intervenção de grande impacto social em favor da liberdade de expressão na internet. Frente às denúncias de manipulação das informações que levaram Mahmoud Ahmadinejad ao poder no Irã, o grupo se juntou a outros grupos Hacker’s e efetuou uma série de ataques DDoS aos sites do governo, lançando também um outro site que permitia a troca de informações entre o país e o resto do mundo [4]. Entretanto, foi apenas em 2010 que o grupo se tornou conhecido mundialmente.
Em dezembro de 2010 os Anonymous manifestaram apoio ao site Wikileaks, que por divulgar informações comprometedoras de instâncias do governo americano, foi boicotado por empresas como Master Card, Visa, PayPal e Amazon, que bloquearam todas as suas transações financeiras. Em resposta, o grupo atacou os sites de todas elas e do banco suíço PostFinance. A ação ficou conhecida como Operation Avenge Assange (Operação Vingue Assange). Julian Assange é o nome do dono do site, que foi preso em Londres, sem direito a fiança.

Se em 2010 o coletivo já era conhecido mundialmente, em 2011 suas ações se tornaram ainda mais representativas e uma quantidade ainda maior de pessoas começou a se juntar à causa. Várias operações em defesa da liberdade de expressão, combate ao uso da força como represália a movimentações populares, denúncias de esquemas de corrupção, entre outras, começaram a ser organizadas ou apoiadas de algum modo pelos Anonymous. No mesmo ano eles realizaram diversos ataques DDoS a sites do governo da Tunísia, que censurou documentos da WikiLeaks e da revolução que ocorria no país [5][6][2].  Um dos membros do grupo invadiu o site oficial do governo e colocou uma mensagem denunciando o uso inadequado da força como resposta às manifestações populares. A chamada Operação Tunísia teve como resposta do governo do país o bloqueio de todos os seus sites a acessos feitos por pessoas de outras pares do mundo. Vários ativistas do grupo foram presos, na ocasião[2]
O grupo tirou do ar também diversos sites do governo egípcio durante a revolução ocorrida no país em 2011. Vários deles permaneceram fora do ar até que o presidente Hosni Mubarak renunciasse. Em uma operação realizada durante a guerra civil da Líbia, o coletivo se dividiu. Alguns deles apoiaram o ditador em governo no país e outros tentaram contribuir para derrubá-lo, o que mais uma vez mostra o caráter não hierárquico do grupo, onde qualquer um pode ter uma idéia e, para executá-la, depende apenas de conseguir adesão de outros [2].
Diversas outras operações foram realizadas no oriente médio em apoio às movimentações populares, mas uma das mais bem sucedidas ocorreu nos Estados Unidos e foi chamada de Occupy Wall Street. O movimento consistiu em um protesto contra a influência empresarial na sociedade e no governo americano e também contra a impunidade dos responsáveis e beneficiários pela crise mundial financeira [2].
Este foi o momento em que Anonymous rompeu as barreiras da internet e foi às ruas. A Máscara Guy Fawkers, símbolo do grupo, era vista no rosto de centenas pessoas e em bandeiras espalhadas pelo mais importante centro comercial e financeiro do mundo, a famosa Wall Street, em Nova York. A polícia respondeu à manifestação com Spray de pimenta nos manifestantes – já dominados, deitados no chão ou ajoelhados –, e claro, a retaliação dos Anonymous veio à altura.  Foram divulgadas informações pessoais e bancárias dos oficiais envolvidos, responsáveis pelo comando da operação. O mesmo tipo de represália foi adotado em outras situações em que a polícia nova iorquina cometeu abusos contra manifestantes nas ruas – em uma destas, o oficial atacado pelo grupo precisou ser transferido para se proteger das consequências da liberação de informações a seu respeito.
Um pouco antes do Occupy Wall Street, Anonymous apoiou um outro protesto feito pelos usuários do sistema de transportes de São Francisco, que se manifestavam contra um assassinato cometido por um policial no metrô da cidade. O guarda atirou em um homem que desarmado e que já estava dominado no chão [7]. Em resposta ao protesto, a direção do metrô bloqueou as redes de celular nos túneis, impedindo que os manifestantes se comunicassem. A resposta dos Anonymous ao bloqueio foi cruel. Eles divulgaram uma foto em que um funcionário Sênior do serviço aparecia nú [8] e fizeram com que o site da empresa permanecesse fora do ar por todo um final de semana [7].  Algumas fontes dizem que o grupo chegou a paralisar o metrô através de ataques ao sistema de controle do mesmo.
O blog Estadão [9] possui um marcador inteiro, descrevendo uma série de atividades dos Anonymous ao redor do mundo. O mais interessante em estudar o comportamento deles, é observar que suas ações são sempre direcionadas a um alvo econômico ou político em favor do povo e que, mesmo quando roubam informações secretas de alguma organização sob ataque, não divulgam aquilo que pode prejudicar investigações policiais sobre crimes cometidos contra a sociedade. Foi o que fizeram quando interceptaram um lote de e-mails do tablóide inglês The Sun, que se fosse divulgado, poderia prejudicar investigações em andamento no país. O mesmo ocorreu em relação a alguns dos documentos roubados da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) em uma de suas operações, que segundo o grupo, seria irresponsabilidade divulgar.
Uma característica marcante dos Anonymous é que grande parte de suas ações são anunciadas com antecedência, e ainda assim, seus alvos não conseguem se defender. No último natal eles roubaram dados de aproximadamente 4 mil cartões de crédito de grandes empresas e doaram a instituições de caridade, em diversos países. As empresas roubadas foram o Departamento da Defesa norte-americano, o Exército, a Força Aérea e empresas do ramo tecnológico como a Apple e Microsoft [10]. Segundo informações divulgadas nas redes sociais do grupo algum tempo antes dos roubos serem iniciados, essas doações são uma forma de protesto à corrupção nas redes bancárias, que lesam milhares de pessoas [11]. Nestes casos, os donos do dinheiro não são prejudicados, posto que os bancos devem devolver aquilo que foi roubado.
No Brasil, recentemente, atribuiu-se ao grupo uma série de ataques DDoS a sites de diversos bancos, empresas de cartão de crédito e à própria FEBRABAN [12]. Segundo argumentam os responsáveis pelo perfil @AntiSecBrTeam, que reinvindica a autoria das ações, esta operação – chamada de #OpWeeksPayment, tem o objetivo de chamar a atenção da população para a corrupção e injustiça, tão comuns no país. Entretanto, participando de reuniões do grupo no RaidCall (onde em geral se reúnem), foi possível perceber que muitos membros dizem que este tipo de ataque não condiz com os objetivos do grup, por prejudicar o trabalhador comum. Este tipo de informação desencontrada chama a atenção para outra característica marcante dos Anonymous, que inclusive, já foi citada: a inexistência de um comando central, que coordene suas ações ou estabeleça um conjunto de regras a serem seguidas para que alguém possa se denominar parte do coletivo. Na verdade, o próprio discurso do grupo nos vídeos de apresentação do YouTube e em documentos compartilhados nos fóruns virtuais expõe isto: qualquer um que queira pode se denominar Anonymous, independente de qualquer característica pessoal, social ou profissional. Ao mesmo tempo em que isso representa um trunfo, ao protegê-los em meio ao anonimato de fato, pode representar também um problema, ao permitir que qualquer pessoa execute qualquer ação e use o nome do coletivo para se proteger ou obter algum destaque na mídia.
Outro suposto mal entendido em relação aos Anonymous diz respeito à criação do AnonyUpload [13], em resposta ao fechamento do site MegaUpload. Vários veículos oficiais de notícia e perfis no Twitter e Facebook também atribuídos aos Anonymous tem informado que o AnonyUpload foi criado pelo coletivo para que os usuários da rede compartilhem seus arquivos sem se preocupar com direitos autorais. Entretanto, participando dos fóruns de discussão do grupo no facebook e no IRC, onde muito se fala a respeito das ações do coletivo ao redor do mundo, é fácil descobrir que os Anonymous não possuem qualquer relação com o suposto compartilhador de arquivos. Os membros mais antigos destes fóruns afirmam que se trata de Pishing, um tipo de fraude virtual cujo objetivo é adquirir fotos, músicas, vídeos e outros dados virtuais ao se passar por uma pessoa, organização ou grupo confiável [14]. Mais recentemente, o próprio site colocou em sua página inicial um aviso de que não possui qualquer ligação com os Anonymous, embora apoie alguma de suas ações.
Mais um exemplo de ação atribuída ao coletivo Anonymous e que de fato não seria realizada pelo mesmo é o suposto ataque ao Facebook que ocorreria no ano de 2011. Um membro que se declara parte dos Anonymous publicou um vídeo na internet dizendo que o Facebook seria destruído, mas dias depois, outros membros desmentiram a história e disseram que não faria qualquer sentido um ataque à rede social, posto que é através dela que boa parte de suas campanhas são realizadas [16].
Um site que de fato parece ter sido criado pelos Anonymous é o CorrupçãoLeaks, que foi desenvolvido com o objetivo de facilitar denúncias de corrupção em nosso país.  De acordo com os ativistas Hackers que coordenam o site, as denúncias devem ser enviadas junto a algum tipo de evidência ou prova que garanta a sua veracidade, para que então, membros ligados aos Anonymous ou jornalistas parceiros possam investigar e tornar públicas as denúncias ou informações que possam contribuir para a punição dos envolvidos. Entretanto, já faz alguns dias que a contagem de denúncias efetuadas no site e daquelas que estão sendo averiguadas estão paradas em 48 e 6, respectivamente. Não é possível afirmar, por enquanto, o motivo.
Outras ações atribuídas ao grupo em nosso país são a organizações a apoio de diversas passeatas e protestos em diversos estados e cidades, além dos conhecidos ataques a sites de bancos, governo federal e governos estaduais (recentemente vários sites do governo da Bahia e Rio e Janeiro foram derrubados em apoio às greves). Entretanto, nenhuma daquelas ocorridas no Brasil obteve o impacto das anteriormente descritas no Oriente Médio ou nos Estados Unidos. Uma rápida busca no youtube com as palavras “Passeatas Anonymous” traz vídeos de vários dos protestos realizados em nosso país, e neles, é possível observar a  movimentação do grupo. Parece que os brasileiros não estão no mesmo ritmo dos americanos e europeus, que foram capazes de interceptar uma áudioconferência do FBI e da polícia inglesa em que se discutia como combate-los, e por ironia, ainda divulgaram o conteúdo das conversas na internet [17].
Nas reuniões do coletivo no chat RaidCall tem se discutido muito o impacto da entrada massiva de pessoas aos grupos de discussões dos Anonymous. Muitos afirmam que isto está tirando o foco e fazendo perder o rumo, com alguns chegando a brincar que “virou pizza” (palavras de um usuário aparentemente mais experiente em uma reunião ocorrida ainda na primeira semana de fevereiro). Lá dentro, quase nunca se sabe quem é de fato um ativista engajado nos protestos do grupo ou um simples curioso que quer apenas conhecer ou aprender a hackear. Aos entusiastas do hackerativismo, cabe lembrar que discussões do gênero não ocorrem em aberto, posto que se trata de atividade ilegal e seria muito arriscado para os envolvidos. Os grupos de discussão do coletivo no RaidCall e no Facebook são destinados mais à divulgação de informações, organização e apoio a passeatas e outros movimentos. No chat existem alguns grupos fechados, nos quais uma senha é exigida para entrar. Um deles possui o título Hackerativismo. Entretanto, não sei dizer o que ocorre lá dentro. É fato também que os Anonymous tem criado diversos outros canais de comunicação, como fóruns protegidos na internet. Os links de alguns às vezes são disponibilizados no RaidCall ou no Facebook para quem se interesse. Entretanto, dificilmente um curioso terá acesso às conversas sobre hackerativismo.  O que, então, se conversa nestas fóruns?
Boa partes das conversas que acompanhei nos fóruns dos Anonymous, são referentes a passeatas, necessidade de conscientização da população a respeito da corrupção política e das grandes corporações, necessidade de apoiar movimentos como o protesto do jornalista Pedro Rios, em São Paulo, que critica a ação dos policiais em Pinheirinhos, entre outras coisas do gênero. Discute-se também política – socialismo X capitalismo, o comportamento dos próprios Anonymous, a autoria dos ataques Hacker e o papel que outros grupos, como LulzSec, tem exercido nas movimentações realizadas.
Aos mais curiosos sobre em que consiste o Anonymous, recomendo buscar pelo Twitter e pelo Facebook as páginas e perfis do grupo. Constantemente são divulgadas informações interessantes nestes espaços. No facebook e no próprio RaidCall eles costumam se dividir por estados: Anonymous SP, Anonymous MG, entre outros. Se você tem interesse em interagir com outros Anonymous, busque pelo seu estado nas redes sociais. Lá é possível se inteirar de  toda a movimentação do coletivo e contribuir a seu modo, seja divulgando informações, opinando ou como puder.
O coletivo Anonymous não possui ligação a nenhum grupo político ou religioso. Parecem agir motivados pelos mesmos ideais libertários descritos no início deste texto. Estes ideais são levados tão a sério que se refletem em toda a estruturação do coletivo e mesmo no modo como eles se tratam nas redes sociais: mesmo os notadamente mais experientes tratam a todos como iguais e se colocam inteiramente disponíveis a tirar dúvidas, conversar a respeito ou orientar quanto a como contribuir com o grupo – ou melhor, com a idéia Anonymous, como gostam de se referir.
Para mais informações sobre os Anonymous e especialmente sobre Engenharia Social e Psicologia, sigam: @Anony_Analysis
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